“Mais do que ampliar produção ou conquistar novos mercados, o desafio colocado para a indústria mineral — e para a Vale em particular — é redesenhar o próprio conceito de mineração, incorporando novas tecnologias, reduzindo impactos ambientais e ampliando a geração de valor para as comunidades”
No momento em que a mineração ocupa lugar cada vez mais central nas discussões globais sobre transição energética, tecnologia e desenvolvimento econômico, a estratégia da Vale aponta para uma transformação profunda do setor. A companhia, uma das maiores produtoras de minério de ferro do mundo e líder global em diversas commodities minerais, tem reforçado uma agenda que combina crescimento, inovação tecnológica, sustentabilidade e impacto social.
A visão apresentada por Gustavo Pimenta, presidente da companha, no primeiro dia do PDAC 2026, reflete essa mudança de paradigma. “Mais do que ampliar produção ou conquistar novos mercados, o desafio colocado para a indústria mineral — e para a Vale em particular — é redesenhar o próprio conceito de mineração, incorporando novas tecnologias, reduzindo impactos ambientais e ampliando a geração de valor para as comunidades”, disse ele.
Pimenta abriu sua fala com uma provocação necessária: “Não há IA sem mineração. Não há transição energética sem mineração”. No entanto, ele reconhece que ser “essencial” já não é suficiente para garantir a aceitação social da mineração. A Vale agora busca transcender esse papel, movendo-se em direção a uma operação que gera prosperidade compartilhada e impacto ambiental positivo.
Segundo o executivo, o papel da mineração nunca foi tão relevante. “Se hoje vivemos mais e melhor, isso está diretamente ligado aos minerais. E olhando para o futuro, a necessidade desses recursos será ainda maior”, afirmou. No centro das transformações globais, a demanda por minerais cresce impulsionada por dois vetores principais: a digitalização da economia e a transição energética. Tecnologias como inteligência artificial, eletrificação e armazenamento de energia dependem diretamente de matérias-primas minerais.
Pimenta citou estudos internacionais que indicam que a oferta global de minerais precisará crescer de cinco a seis vezes nas próximas décadas para atender a esse novo cenário. Cobre, níquel, lítio e terras raras estão entre os insumos mais demandados, mas o minério de ferro também segue essencial, especialmente no contexto da descarbonização da indústria do aço.
Nesse cenário, segundo o executivo, a Vale ocupa posição estratégica. A empresa detém algumas das maiores reservas minerais do planeta e reúne uma infraestrutura logística integrada que inclui minas, ferrovias, portos e operações em diversos continentes.
Ao mesmo tempo, a companhia acredita que o setor precisa avançar em um tema crucial: a percepção da sociedade. Historicamente, a mineração enfrenta resistência e questionamentos públicos, o que torna fundamental ampliar transparência e responsabilidade socioambiental. “Não basta dizer que somos essenciais. Precisamos mostrar que geramos valor real para a sociedade”, destacou Pimenta.
Tecnologia e inovação como pilares
Uma das frentes mais importantes da estratégia da Vale está na incorporação de novas tecnologias para aumentar eficiência e segurança. A digitalização das operações e o uso de equipamentos autônomos já fazem parte da realidade em algumas unidades da empresa.
Um exemplo é a mina de Brucutu, em Minas Gerais, que se tornou referência global em automação. Com caminhões autônomos e sistemas avançados de gestão operacional, a unidade conquistou o Shingo Prize, considerado um dos principais reconhecimentos internacionais em excelência operacional.
Para a Vale, a tecnologia não é apenas uma ferramenta de eficiência, mas um imperativo de segurança e sustentabilidade. Além de elevar produtividade, essas tecnologias ampliam os padrões de segurança e reduzem custos operacionais. Para a mineradora, esse movimento é apenas o início de uma transformação mais ampla, que deverá incorporar inteligência artificial, análise de dados em larga escala e automação de processos.
Mineração com menor impacto ambiental
Em um momento em que o mundo olha com lupa para a Amazônia, Pimenta trouxe dados sobre a operação em Carajás. Ao ocupar apenas cerca de 3% de uma área de 800 mil hectares para a extração do minério de ferro de mais alto teor do mundo, a Vale atua como a principal guardiã dos 97% restantes.
“A mineração protege a floresta”, afirmou o CEO, destacando que a presença da companhia e sua parceria com as autoridades brasileiras impediram centenas de tentativas de invasões por mineradores ilegais e desmatadores nos últimos anos. O modelo prova que o desenvolvimento econômico de baixo impacto é a única forma viável de financiar a preservação ambiental em escala.
Na região de Carajás, no Pará, a Vale mantém um modelo que se tornou referência internacional. A empresa utiliza apenas cerca de 2% a 3% da área da Floresta Nacional de Carajás para suas operações, preservando aproximadamente 800 mil hectares de floresta amazônica. Ao longo de mais de quatro décadas de presença na região, a companhia investiu em monitoramento ambiental, proteção territorial e combate a atividades ilegais, contribuindo para a conservação de uma das áreas mais biodiversas do planeta.
Descarbonização
A ambição da Vale é clara: atingir o Resíduo Zero e Carbono Zero. Após as lições dolorosas de 2019, em Brumadinho (MG), a empresa acelerou mudanças estruturais em seu modelo operacional e hoje opera 85% de sua produção sem o uso de barragens, priorizando o empilhamento a seco e a filtragem.
No campo das emissões, a empresa estabeleceu metas ambiciosas de descarbonização e lidera soluções como o Tecnored (briquete de aglomeração a frio), que permite aos clientes siderúrgicos reduzir drasticamente sua pegada de carbono. Além disso, o foco nos “Mega Hubs” no Oriente Médio e no Brasil sinaliza a transição para uma era onde o hidrogênio verde será o combustível da indústria.
Paralelamente, a Vale tem ampliado projetos de reaproveitamento de resíduos minerais, transformando rejeitos em novos produtos ou reinserindo materiais no processo produtivo.
Comunidades e prosperidade compartilhada
Outro elemento importante da estratégia da Vale é o fortalecimento do relacionamento com as comunidades onde atua. A empresa lançou um compromisso para ajudar a retirar 500 mil pessoas da pobreza nas regiões onde mantém operações. O programa utiliza metodologias desenvolvidas pela Universidade de Oxford e atua em áreas como geração de renda, educação e saúde.
Até o momento, a Vale já transformou a realidade de mais de 52 mil famílias. “Queremos ser bons vizinhos”, reiterou Pimenta, enfatizando que a licença para operar é construída através da melhoria real da saúde, educação e renda nas comunidades locais.
A diversidade também ganhou corpo: a presença feminina na Vale saltou de 13% para 26%, com lideranças femininas ocupando postos críticos em operações como Sudbury, no Canadá.
Foco em três minerais estratégicos
No plano de negócios, a Vale tem concentrado seus esforços em três commodities consideradas estratégicas para o futuro da economia global: minério de ferro, cobre e níquel.
O minério de ferro continua sendo o principal negócio da empresa. A companhia produziu mais de 330 milhões de toneladas do insumo no último ano e busca ampliar gradualmente esse volume, aproveitando a qualidade elevada de suas reservas. Já o cobre e o níquel ganham importância crescente, especialmente diante da demanda gerada pela eletrificação e pelas tecnologias de energia limpa.
Para a Vale, o Brasil possui vantagens competitivas únicas no cenário global de minerais críticos. O país reúne grandes reservas minerais, matriz energética majoritariamente renovável e potencial para se tornar protagonista na produção de materiais com menor pegada de carbono.
Encerrando sua apresentação, Pimenta disse que o objetivo é claro: ir além do papel tradicional da mineração e consolidar um modelo que combine eficiência econômica, sustentabilidade e prosperidade compartilhada. “Queremos deixar de ser apenas uma empresa essencial para nos tornar uma empresa que gera valor para a sociedade”, concluiu o Executivo. (Mara Fornari)